quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cidade no Colorado quer ser o novo Vale do Silício


CLAIRE CAIN MILLER
Direto de Boulder, Co.
Sessenta engenheiros, empresários e financistas estavam tomando chá de erva mate em um café ao lado de uma loja de bongs e lingerie, certa tarde ensolarada de terça-feira, em Boulder, enquanto discutiam a maneira pela qual a cidade - em geral vista como baluarte de hippies, farmácias que vendem maconha e adeptos do alpinismo - se havia tornado um dos novos polos do capitalismo.
Empresários e investidores experientes do setor de tecnologia estavam acompanhados por pessoas que acabam de se mudar para Boulder na esperança de começar uma empresa na pequena cidade, que vem criando companhias iniciantes de tecnologia em ritmo digno de atenção. Nos três primeiros meses do ano, 11 empresas iniciantes de tecnologia no Colorado levantaram US$ 57 milhões junto ao setor de capital para empreendimentos, solidificando a posição de Boulder entre os novos centros da tecnologia no país.
"No Vale do Silício, seríamos um peixinho em um grande lago, e a área parecia muito mais corporativa e menos colaborativa", diz Chad McGimpsey, que se mudou para Boulder um mês atrás e agora participa regularmente do clube de discussões que se reúne duas vezes ao mês. "Aqui, somos um peixe grande em um pequeno lago. E as montanhas são lindas".
Uma longa lista de comunidades em todo o território dos Estados Unidos já tentaram se tornar "o novo Vale do Silício". Mas poucas podem oferecer a mistura correta de dinheiro, universidades, talento no setor de alta tecnologia e estilo de vida atraente necessária para estimular a criação de empresas. Boulder, no entanto, vem atraindo tanto veteranos do setor de tecnologia quanto jovens empresários do Vale do Silício e de Manhattan, com a promessa de uma comunidade de tecnologia que permite caminhadas no sopé das Montanhas Rochosas como passatempo para o horário de almoço.
Os grandes sucessos da cidade incluem a Rally Software, uma companhia em rápido crescimento que produz software para gestão de projetos; a Socialthing, serviço de mídia social adquirido pela America Online; e a Kerpoof, que produz ferramentas de design na web para crianças e foi adquirida pela Disney.
O dinheiro do setor de capital para empreendimentos está acompanhando os empresários nessa migração rumo ao Colorado. Entre 2007 e 2009, o setor investiu US$ 1,9 bilhão em 275 empresas iniciantes no Colorado, ante US$ 1,6 bilhão em 274 companhias no período 2004-2006, de acordo com a Associação Nacional de Capital para Empreendimentos dos Estados Unidos. O dinheiro vem tanto de empresas locais de capital para empreendimentos, a exemplo do Foundry Group, um agente importante da economia de Boulder, quanto do Vale do Silício e de Nova York.
As receitas de outras cidades para criar o próximo Vale do Silício em geral desconsideram alguns dos ingredientes essenciais. Richard Florida, que escreveu um livro sobre a ascensão das empresas criativas e estuda os motivos para que certas cidades fomentem a criatividade, menciona três fatores cruciais: pessoal talentoso e alta qualidade de vida que convença essas pessoas a ficar em uma cidade; conhecimento tecnológico; e uma atitude de abertura quanto a novas maneiras de fazer as coisas, que muitas vezes está associada à presença local de uma forte contracultura.
"Boulder atingiu essa posição muito bonita e favorável, na qual pode oferecer muitas das vantagens de uma cidade universitária - tecnologia, talento e um ambiente aberto - mas sem incorrer em muitos dos custos, no tráfego e no congestionamento que podem prejudicar alguns dos polos atualmente existentes de inovação", disse Florida.
Esse equilíbrio não surgiu de maneira acidental. Companhias de alimentos naturais como a Wild Oats Markets e a Celestial Seasonings foram fundadas aqui, e diversos laboratórios nacionais e grandes empresas de tecnologia como a IBM têm postos avançados na cidade.
Alguns anos atrás, empresas de biotecnologia, telecomunicações e armazenagem de dados decolaram em Bolster, com o estímulo da aquisição da Storage Technology pela Sun Microsystems, em uma transação de US$ 4,1 bilhões em 2005.
"Aquela geração de empresários conquistou o sucesso, mas o mais importante é que eles não deixaram a cidade", diz Brad Bernthal, diretor de iniciativa empresarial no Silicon Flatirons Center, um centro de pesquisa ligado à Universidade do Colorado. "Em muitos lugares, quando a pessoa ganha dinheiro, se aposenta e se muda. Mas esta cidade serve como destino para as pessoas".
O centro que ele dirige opera de forma a promover interação entre os veteranos e os jovens empresários. Patrocina encontros, um concurso de planos de negócios que abarca toda a universidade, e conduz uma clínica assuntos jurídicos que oferece assistência judicial gratuita aos jovens empresários quanto a temas como a proteção à propriedade intelectual.
O TechStars, um programa de orientação de três meses de duração que é realizado em uma velha academia de ginástica em Boulder desde 2007, ajudou a estimular o crescimento da comunidade de empresas iniciantes na cidade. Das primeiras 10 companhias cujos dirigentes participaram da orientação, oito conseguiram capital junto às companhias de capital para empreendimentos, cinco foram adquiridas por empresas maiores e três continuam em atividade.
Mas David Cohen, o fundador do programa TechStars, tem orgulho igualmente grande de um dos fracassos do programa, porque segundo ele o caso demonstrou até que ponto a comunidade da tecnologia é solidária em Boulder. Quando a EventVue, que criava comunidades online para conferências, fechou as portas, ofertas de emprego ao seu pessoal foram feitas em grande número por outras companhias de tecnologia.
Quase metade das 30 empresas que passaram pelo programa da TechStars decidiram que continuariam a operar na cidade. Muitas delas dividem espaço - pequenos escritórios e uma grande sala comum, varanda e cozinha - por sobre o Aji, um restaurante latino-americano no centro da cidade.
Uma delas é a Everlater, que cria software que permite manter diários de viagem na web. Os fundadores da empresa, Nate Abbott e Natty Zola, se mudaram para Boulder a fim de economizar dinheiro, porque poderiam morar nas casas de seus pais, depois de deixarem seus empregos em Wall Street. Mas quando chegaram, conta Zola, "não demoramos a perceber que a cidade seria um lugar maravilhoso para criar uma empresa".
Os fundadores do Foundry, ainda que não sejam investidores na empresa, costumam conversar com os proprietários quando eles precisam de ajuda, ou os recebem em jantares. O relacionamento estabelecido com um dos mentores no programa TechStars levou a uma parceria entre a companhia estreante e a Martha Stewart Living Omnimedia.
Os fundadores do Foundry também organizaram o clube de discussão no café e recebem todos os aspirantes a empresários que os procuram em busca de conselhos gratuitos sobre suas ideias de negócios.
Ainda assim, Boulder depende do Vale do Silício. Não existem investidores suficientes no Colorado para financiar empresas crescentes. Muitas das empresas locais abrem escritórios na Califórnia, incluindo a SimpleGeo, criada por Matt Galligan, o fundador da Socialthing. A nova companhia que ele criou produz ferramentas de mapeamento e localização para companhias de software.
"A comunidade aqui é excelente, mas em termos de geração de negócios não há como substituir o Vale do Silício", ele afirmou.
Ainda que a Universidade do Colorado tenha aberto as portas à comunidade de tecnologia, ela não desempenha papel tão central quanto a Universidade Stanford faz no Vale do Silício. "Criar uma cultura de certa forma parecida com a do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) ou Stanford, onde nas disciplinas técnicas a expectativa é de que todos os alunos criem novas empresas, ou ao menos isso não é visto como estranho, ainda não é parte da mentalidade na maioria dos departamentos", diz Bernthal.
E manter uma cultura assim convidativa, na qual executivos importantes de capital para empreendimentos oferecem assessoria gratuita às pessoas, será mais difícil caso a cena da tecnologia continue a se expandir em Boulder.
Ainda assim, muitos dos empresários de tecnologia da cidade escolheram viver aqui porque desejavam escapar ao Vale do Silício e à sua cultura de tecnologia institucionalizada.
"No Vale do Silício, existe o sentimento de que para alguém vencer, alguém mais precisa perder", diz Kimbal Musk, presidente-executivo da OneRiot, uma companhia de buscas online em tempo real sediada em Boulder. "Isso resulta em sucesso, mas também leva algumas pessoas a partir".
Tradução: Paulo Migliacci ME
Fonte: http://tecnologia.terra.com.br

The New York Times
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