quinta-feira, 13 de maio de 2010

Instituto Butantan procura parceiros para pesquisas na Amazônia -

Evento realizado na sede da Fiesp teve finalidade de atrair atenção do empresariado para questão ambiental
O Instituto Butantan expôs as oportunidades e as perspectivas para a indústria brasileira em participar da exploração da imensa biodiversidade da Amazônia para estudos de bioprospecção e desenvolvimento de novas substâncias farmacêuticas. O evento Perspectivas do Projeto Butantan - Amazônia para a Indústria Brasileira, realizado em abril na sede da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), teve a finalidade de atrair a atenção do empresariado para a questão ambiental.

Pela manhã, foram apresentados produtos desenvolvidos pelo instituto, que há quatro anos faz pesquisas na Amazônia; e à tarde, houve exposição de experiências e parcerias do Butantan com empresários do setor farmacêutico. "É um projeto muito ambicioso em estágio adiantado que oferece um leque de oportunidades. A região tem alta incidência de animais peçonhentos e diversidade de biomas", destacou o diretor do Instituto Butantan, Otavio Azevedo Mercadante.

Na abertura da palestra, o presidente do Conselho Superior do Meio Ambiente da Fiesp, Walter Lazzarini, afirmou que a falta de desenvolvimento competente e racional deu motivos para pensamentos como a "Amazônia é do mundo" e ideias "esdrúxulas" como a de se vender produtos da região para pagar a dívida externa, Por isso, disse ser importante e oportuna a discussão, a reflexão e ações para desenvolver a Amazônia.

Autonomia

Antes de falar da atuação do Butantan na Amazônia e dos projetos em andamento, Mercadante informou que desde a sua origem, há quase 110 anos, o instituto tem a tríplice missão: de produção imunobiológica, pesquisa e desenvolvimento e difusão cultural. Destacou que 90% das vacinas consumidas no Brasil são produzidas no instituto e a produção é crescente. Os soros respondem por mais de 60% da produção nacional.

O diretor também informou que orçamento do Butantan se compõe de investimento da Secretaria Estadual da Saúde, recursos da Fapesp e outras agências, da Finep, do Ministério da Saúde (venda de vacinas e soros) e fundos de apoio à pesquisa como o BNDES/Funcet. Disse que há entraves nas parcerias público-privadas por conta de propriedade industrial e patente.

Ele ainda adiantou que há um decreto de aplicação da lei de inovação paulista que, se aprovado, dará autonomia ao Butantan para fazer licenciamento e operações referentes a royalties decorrentes de patentes. Mercadante acrescentou que o Butantan não pode dispor de titularidade, embora tenha várias patentes que entram como Fundação Butantan.

O instituto

Sobre o projeto Butantan-Amazônia, o diretor disse que o instituto investe na criação do Centro de Pesquisas de Belterra (PA), na formação de doutores para cuidar dos projetos de biodiversidade, na recuperação arquitetônica de chamada de Fordlândia (vila fundada pela Ford no século passado) e na informação à comunidade ribeirinha sobre os riscos de acidentes com animais peçonhentos, já que é a região do País com maior incidência.

A pesquisadora do laboratório de biofísica e bioquímica, Ana Maria Chudzinski, falou da criação de compostos para tratamento de problemas de coagulação sanguínea e dos desafios de transformar substâncias naturais em produtos de usos terapêuticos. As pesquisas (com taturanas, sanguessugas e carrapatos) são orientadas para a criação de anticoagulantes. As pesquisas já levaram à obtenção de cinco patentes.

Já a pesquisadora do Laboratório de Dor, Gisele Picolo, discursou sobre a procura de moléculas de origem natural com ação analgésica. "Por que buscar novos analgésicos? Estimativas mostram que 30% das pessoas sofrem de dor moderada ou aguda ou que todos sentirão dor em alguma fase da vida", assegura a pesquisadora. A maioria dos analgésicos é feita a partir de animais e plantas como é o caso da morfina (papoula) e da aspirina (salgueiro).

Novos remédios

Outras fontes potenciais para a fabricação de analgésico são as serpentes, escorpiões, aranhas peçonhentas e animais marinhos. Destacou que o exemplo mais promissor de analgésico feito no laboratório é a crotalfina. Desenvolvida a partir de venenos de serpente, já passou por testes clínicos no Brasil e agora serão feitos testes no exterior, sob a responsabilidade da empresa farmacêutica Achè, que comercializará o produto.

O diretor do Centro de Biotecnologia, Paulo Lee Ho, discorreu sobre o desenvolvimento de adjuvantes de vacinas. Substância que aumenta a resposta imune do organismo, o adjuvante necessita de menos antígeno (princípio ativo da vacina), o que reduz o preço do medicamento e aumenta a produtividade. Um dos exemplos de sucesso de uso de adjuvante é a vacina contra a coqueluche.

Osvaldo Brazil Esteves Sant`Ana, diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas, ressaltou a importância da aproximação entre os pesquisadores e o setor privado. "Na Amazônia, há um manancial a ser desvendado e preciso para somar conhecimentos e trabalhar juntos". Ele disse que o modelo adequado seria uma combinação entre o setor acadêmico e o empreendedor.

Drogas

Mercadante completou mostrando a diferença entre os dois setores. O desafio é conciliar o fato de que "as empresas buscam resultados imediatos. E os cientistas seguem sua vocação de alargar a fronteira do conhecimento". Celso Monteiro Carvalho, vice-presidente da Fiesp, disse que é preciso "ter mais humildade para dialogar" ao conciliar os interesses do setor acadêmico com a indústria.

Fernando Perez, diretor-executivo da Recepta biofarma, relatou a experiência da empresa especializada no tratamento de câncer. A doença é a segunda causa de morte no Brasil e aumenta de acordo com a longevidade da população, enquanto os custos do tratamento são altos porque os remédios são importados. "Drogas para tratar o câncer terão o maior faturamento do mundo", prevê.

A Recepta tem parceria com o Butantan, com a Faculdade de Medicina da USP e outras instituições e é uma das poucas a fazer testes clínicos e licenciamentos. Ao discorrer sobre a relação entre a indústria farmacêutica e as pesquisas, disse que projetos de biotecnologia "ainda assustam o empresário", porque envolve altos investimentos e há elementos de riscos.

Cientistas nativos

José Walter da Silva Jr, da Ourofino Agronegócios, disse que 29% dos produtos da empresa são de origem biológica (vacinas e soros) e daí a cooperação tecnológica com o Instituto Butantan. A parceria envolve criação de vacinas veterinárias em conjunto, transferência de tecnologia e formação/qualificação e treinamento de pessoal qualificado.

Silva Jr. reforça que a velocidade e as necessidades do mercado são bem diferentes daquelas existentes na academia, mas o "cenário é positivo e vem melhorando. Acredito que é o caminho para outras empresas seguirem mesmo com as incertezas inerentes ao produto em desenvolvimento", destacou.

Marcio de Paula, da Biolab Farmacêutica, destacou os benefícios da inovação farmacêutica em relação às terapias antigas. A empresa tem parceria com universidades e centros de pesquisas em projetos de tratamento da dor, reparação tecidual e câncer.

Spartaco Astolfi Filho, professor da Universidade Federal da Amazônia e assessor científico da Cristália Produtos Químicos Farmacêuticas, falou da falta de profissional qualificado e de cientistas da região Norte do País. Convidou o Butantan a participar da Rede de Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Rede Bionorte), que criará cursos de pós-graduação na área científica de biodiversidade e biotecnologia nos nove Estados que participam da Amazônia Legal. Mercadante mostrou interesse já que o projeto na Amazônia inclui a formação de cientistas nativos.

Fonte: http://www.abn.com.br/editorias1.php?id=59516

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