terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Mercado editorial brasileiro usa pesquisa para mapear potenciais países compradores


Os livros infanto juvenis brasileiros têm boa receptividade nos mercados editoriais de Coreia do Sul, Peru, Reino Unido e Canadá. Na Alemanha, são vistos com o nariz torcido por causa das ilustrações e, em Portugal, a rejeição é total. Eventualmente, é preciso até mesmo investir em "traduções" para que os livros sejam aceitos. A Romênia não gosta do conteúdo e a desorganização na Rússia impede o fechamento de negócios. No quesito obras gerais - o que inclui livros técnicos, não ficção e ficção - o cenário muda um pouco. Se o conteúdo for exótico, pode despertar o interesse na França e na Alemanha. Na Espanha não tem jeito, a rejeição é imensa e, em Israel, o desconhecimento em relação ao Brasil é tão grande que não há o menor interesse nos livros brasileiros.
As conclusões estão num estudo realizado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), em parceria com a Câmara Brasileira do Livro (CBL), para avaliar a potencialidade dos mercados editoriais em 33 países. As conclusões resultam da análise dos representantes das 42 editoras que participaram da pesquisa. Após uma análise quantitativa dos mercados estrangeiros feita pela Apex, os empresários se reuniram para avaliar como percebiam as possibilidades de negócios fora do país. Com foco nos segmentos de livros infanto juvenis, religiosos, técnicos e gerais (incluindo ficção e não ficção), o estudo revelou curiosidades sobre o interesse pelas publicações brasileiras.
 A Índia não gosta dos romances tupiniquins e Portugal tem tanta resistência à produção nacional que evita até mesmo vender direitos autorais para editoras do Brasil. A Espanha sofreu com a crise e tem um mercado agressivo atualmente estacionado e os contratos de venda de direitos autorais nos Estados Unidos são tão complexos que chegam a prever situações de catástrofe mundial. Em Hong Kong, o risco de pirataria literária assusta o mercado, e no Japão, a desconfiança emperra negociações.

Para Síntia Mattar, da Cosac Naify, uma das editoras a participar da pesquisa, algumas surpresas vão ajudar a direcionar os negócios da empresa. "Esse trabalho vai nortear o que vamos trabalhar a partir de agora. Foi surpreendente notar como e o que a gente pode esperar de potencial no mercado externo", diz. Síntia mudou a maneira de encarar a África de língua portuguesa após o estudo. O baixo potencial de consumo de países como Angola e Moçambique fizeram a editora redirecionar o foco, agora depositado na Coreia do Sul. "Foi revelado como um bom mercado, no momento com uma certa instabilidade na aquisição de direitos, mas eles compram muito." A Cosac tem hoje um catálogo de 750 títulos, dos quais metade é de produção própria. É essa fatia que a editora quer vender para casas estrangeiras.

Conhecimento
A maior dificuldade nas negociações de venda de direitos autorais para editoras estrangeiras está no pouco conhecimento da produção brasileira. "Eles não sabem nem que o Brasil lê, nem que edita e publica alguma coisa", diz Antônio Carlos Navarro, da brasiliense LGE. Acostumado a participar das grandes feiras literárias da Europa - como a de Frankfurt e Bolonha - Navarro conta que as negociações podem durar anos se uma editora brasileira quiser vender um título para uma estrangeira.
No sentido contrário, no entanto, o negócio flui rapidamente. "O Brasil é um grande comprador de títulos lá fora, mas não tem muita experiência de vender direitos autorais lá", garante. "Uma coisa que não sabíamos antes desse estudo é quais os caminhos para apresentar uma proposta de venda de direitos. A gente imaginava que isso era feito nos contatos das feiras, mas nas feiras você encerra o processo. É como se fosse um namoro de longo prazo que culmina com casamento. Quando você quer comprar um direito, faz fila, mas quando quer ofertar, todo mundo foge."
Até hoje, a LGE não vendeu nenhum título para editoras estrangeiras, embora já tenha iniciado um namoro com alguns ingleses que se interessaram pela série infanto juvenil do herói Jack Farrell No sentido inverso, o namoro já virou casamento em contratos com uma casa canadense e outra australiana.

Espaço para pequenos projetos
Das 42 editoras que participaram da pesquisa, a maioria é de pequeno porte ou trabalha com nichos como o infanto juvenil e o religioso. Não houve no pacote nenhuma representante do grande mercado editorial brasileiro. "Talvez o foco do projeto não tenha ficado muito claro para grupos com uma posição estabelecida no mercado internacional. Editoras que já atuam com agentes acham que estão bem amparadas na atuação no mercado externo", repara Síntia Mattar, da Cosac Naify, a maior editora a participar do estudo.
"O foco da Apex é nas pequenas e médias empresas. Os grandes grupos não necessitam do apoio. Eles não estão (na pesquisa) porque muitos vão comprar o autor lá fora. O grupo que a gente reuniu é de editoras que querem se internacionalizar na venda de direito autoral no mercado internacional", explica Christiano Braga, gestor de projetos da agência.
Para José Castilho, diretor da Editora Unesp, uma das maiores na edição de textos acadêmicos no Brasil, o caminho além-mar é ainda mais complicado. "Uma coisa mais do que visível é a resistência que o mercado internacional tem em relação à produção acadêmica brasileira. Se não tivermos algum detalhe exótico nessa área, a coisa fica muito difícil", conta. Castilho não se surpreendeu com os dados revelados pela pesquisa da Apex. Há mais de 15 anos a Unesp negocia com editoras estrangeiras. Atualmente, tem investido nas relações com a China, mas já vendeu títulos para Espanha, México, Colômbia e Argentina.
Miriam Gabbai, da Editora Callis, acredita que o estudo só ajuda a sedimentar informações colhidas ao longo dos anos. Especializada em literatura infantil, a Callis já vendeu direitos de publicação na Coreia e em Taiwan. Recentemente, também fechou negócio com editoras do Japão e China. "Surpresas não tivemos. A gente pôde confirmar coisas que intuitivamente achava. A grande surpresa que ainda vai acontecer é como vamos fazer o planejamento, em qual o mercado é melhor entrar e em que momento. Só porque conseguiu vender para a Coreia não quer dizer que seja fácil entrar lá", garante Miriam.

O que diz a pesquisa
Para livros infantis

Polônia
Mercado em crescimento, não se conhece o que eles querem.
Portugal
Diferenças de língua dificultam (é preciso traduzir) e o conteúdo que as crianças estão acostumadas a ler é diferente. Não gostam de livros infantis brasileiros.
Dinamarca
São necessárias vendas combinadas com Suécia e Noruega, porque as tiragens são pequenas (1.000).
Bolívia
Pouco conhecimento. No passado foi um bom mercado %u2014 editores brasileiros já foram convidados, bem cotados, há cerca de 10 anos.
Alemanha
Não gostam da ilustração do livro brasileiro, têm certas definições de tamanho de livro.
Angola
Não têm gráfica, mas há grande demanda por livros. Ainda não trabalham com direitos do autor.
Japão
Há um longo processo para estabelecer confiança. Têm má percepção do brasileiro, de ser pouco confiável. Muito metódicos.
Fonte: -http://www.correiobraziliense.com.br-

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